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Artigos e Análises

Não, Sauron não é um olho gigante e nem um monstro feio

Na trilogia cinematográfica de O Senhor dos Anéis, o inimigo da Terra-Média, como você provavelmente já sabe, chama-se Sauron. Nos filmes, este personagem tem a forma de um olho gigante envolto em chamas fixado no topo da torre Barad-dûr, em Mordor. No entanto, antes de ser derrotado por Gil-Galad, Elendil e Isildur na Guerra da Última Aliança, ele já teve uma forma humana. Nos livros, Sauron tem o corpo de um homem. O chamado Olho de Sauron, neste caso, é apenas uma simbologia — cujo significado vamos debater a seguir.

Quem foi Sauron?

Sauron foi o inimigo do Mundo, assim como o foi seu antecessor, Morgoth, do qual foi aprendiz. Veio a ser o principal promotor do Mal na Terra-média, especialmente no declínio desta, no final da Era dos Elfos e início da Era dos Homens.
Mestre na falsidade e na dissimulação, habilidoso em palavras e no convencimento e poderoso nas tradições, era admirado pela maioria. Sua principal forma de dominação era atiçar a fagulha de mal que havia dentro de cada pessoa, alimentando a chama do orgulho, da cobiça e o desejo por poder. Sauron nem sempre foi mal. Ele era um dos Maias do Vala Aulë, conhecido como Ferreiro, o mais habilidoso em invenções e produção de artefatos. Seduzido por Morgoth com a promessa de poder absoluto, Sauron o acompanhou em seu caminho para o Escuro. Assim como os Valar, os Maias podiam assumir forma humana ou até mesmo de plantas e animais. O autor J. R. R. Tolkien diz em uma de suas cartas (mais tarde compiladas em um livro — Cartas de J. R. R. Tolkien) que ”No início da Segunda Era ele ainda era belo de se ver, ou ainda podia assumir uma bela forma visível”.

Já no livro O Silmarillion, que trata da mitologia do universo de Senhor dos Anéis, Tolkien escreveu: “Sauron, entretanto, não era de carne mortal; e, embora estivesse agora destituído dessa forma na qual havia cometido tanto mal, para nunca mais voltar a parecer simpático aos olhos dos homens, mesmo assim seu espírito se elevou das profundezas e passou como uma sombra e um vento escuro por cima do mar, voltando à Terra-média e a Mordor, que era seu lar.“ Ou seja, Sauron destruiu seu antigo corpo para ser (dentre outros motivos) temível de uma forma visível para os homens; uma imagem de perversidade e ódio tornados físicos. O Olho de Sauron é citado diversas vezes no livro. Inclusive, ao mesmo tempo em que Sauron possui forma física. “Agora, ruminava no escuro até elaborar uma nova forma para si mesmo. E ela era terrível, pois sua bela aparência havia desaparecido para sempre quando ele fora lançado nas profundezas durante a submersão de Númenor. Ele voltou a usar o Grande Anel e os trajes de poder. E a maldade do Olho de Sauron poucos, mesmo dos mais fortes entre elfos e homens, conseguiam suportar.”

Já se pode concluir que Sauron não é um olho gigante e que o Olho tem outro significado: um símbolo de dominação, sabedoria e influência. No entanto, não vamos nos aprofundar na mitologia. Nos livros que inspiraram a trilogia O Senhor Dos Anéis, a forma física de Sauron não é tão bem descrita quanto no livro O Silmarillion. A passagem mais famosa, que demonstra a forma humana física de Sauron, é uma revelação de Sméagol, que ficou um período como prisioneiro em Mordor, onde foi torturado e interrogado pelo próprio Sauron, o que é demonstrado pelo diálogo:

– Seria Minas Ithil, que Isildur, filho de Elendil, construiu – disse Frodo. – Foi Isildur quem decepou o dedo do Inimigo.
– Sim. Ele só tem quatro na Mão Negra, mas são suficientes – disse Gollum tremendo. – E Ele odiava a cidade de Isildur.

Observamos assim, que Sméagol visualizou a ausência do dedo do Anel na Mão Negra de Sauron enquanto este o torturava.

A representação de Sauron no cinema

Por qual motivo, então, Peter Jackson, diretor das adaptações de O Senhor dos Anéis para o cinema, optou por representar Sauron não como uma forma humana, mas como um olho sem pálpebras feito de fogo ardente no alto de uma torre? Sauron não tem tanta profundidade de caráter no filme, pois a mitologia do universo de O Senhor dos Anéis é muito extensa e diversificada. Tudo isso tem de ser bem mastigado para caber em um roteiro didático e interessante (de aproximadamente 3 três horas cada filme). Sua ambição e personalidade no filme são as mesmas que no livro; ele é o Inimigo do mundo, o Senhor do Escuro que busca subjugar toda a Terra-Média em desgraça e medo. No longa “A Sociedade Do Anel”, a primeira descrição detalhada de Sauron vem em um diálogo entre Saruman e Gandalf, em Isengard:

Saruman: Sauron já conquistou muito do seu antigo poder. Ele ainda não pode assumir forma física, mas seu espírito não perdeu nada de sua potência. Protegido na sua fortaleza, o Senhor de Mordor a tudo vê. Seu olhar perfura nuvens, sombra, terra e carne. Você sabe do que estou falando, Gandalf. Um grande olho sem pálpebras, envolvido em chamas.

A partir desta descrição, observamos que muito sobre o Sauron do livro foi resumido, bem explicado e adaptado neste diálogo: a essência do personagem se manteve, a menção à antiga forma física de Sauron também, mas com um detalhe diferente: a metáfora do Olho.

No livro, o Olho serve como um símbolo do “olhar”; da visão de Sauron — uma visão que controla, intimida e corrompe, além de se referir à sua habilidade de ver tudo através da pedra Palantir (uma esfera que mostra um mundo escuro de material transparente, permitindo que o usuário observe lugares distantes no espaço e no tempo, ou para falar com outra pessoa que também usa um palantír). Nos filmes, Peter Jackson usou esta referência simbólica da influência maligna de Sauron, mas a transformou na forma “física” do personagem em si.

O motivo da representação do Olho nos filmes

Não atribuir um corpo humano ao personagem o torna mais ameaçador. Com exceção do flashback que nos é apresentado em “A Sociedade do Anel”, na Guerra da Última Aliança (onde Sauron perde o anel para Isildur), em que o personagem aparece com sua armadura de aço negro, ele só é retratado nos filmes como um olho gigante vigiando Mordor de sua fortaleza, Barad-dûr. Essa decisão do diretor proporciona o mesmo efeito que a descrição de Tolkien sobre o vilão. Colocando o “mal” como pano de fundo na trilogia literária (não como algo secundário, mas como algo que serve de base para tudo), Tolkien criou um mal que é definitivamente sinistro, que parece estar em todos os lugares, penetrando toda a Terra-Média e rodeando a Sociedade do Anel de todas as formas.

A escolha de Jackson de retratar Sauron com um ameaçador olho-que-tudo-vê, que nunca pisca ou dorme, é uma forma muito inteligente de reproduzir o mal onipresente descrito nos livros. Porém, ao mesmo tempo, retratar Sauron como o Olho pode diminuir a imaginação da audiência quando pensamos nele, e isso pode tornar o personagem de alguma forma menos assustador para aqueles que não leram os livros da trilogia. Entretanto, isso faz com que Sauron seja uma constante ameaça para toda a Terra-Média, pelo menos até que o Um Anel seja destruído.

O “corpo” de Sauron está em Mordor, mas ele está em todos os lugares. Podemos concluir então que retratar Sauron como o Olho em vez de um humano vivendo em sua fortaleza em Mordor, enfatiza o fato de que é impossível escapar das influências do mal na Terra-Média. Os membros da Sociedade do Anel não lutam para destruir Sauron ou o Anel; eles lutam para livrar a Terra-Média do mal onipresente. Não mostrar Sauron diretamente nos filmes enfatiza o fato de que lutar contra o mal não se resume em exércitos vencendo guerras com espadas; se trata de indivíduos resistindo às constantes tentações que os rodeiam. Assim como O Olho, este mal onipresente não dorme, não vacila e ninguém consegue se esconder dele para sempre.

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