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Artigos e Análises

Momento Retrô: Final Fantasy IX

Normalmente buscamos jogos ainda mais antigos do que este, que é de 2000, para o Momento Retrô. Mesmo assim, não consegui me segurar. Eu preciso falar de Final Fantasy IX, o jogo que mais me emocionou desde que aprendi a jogar Video Game. Sim, até mais do que Life Is Strange.

Final Fantasy está entre as franquias de RPG mais respeitadas e consagradas de toda a história. São dezenas de jogos que, desde 1987, marcam a jogatina de Gamers do mundo todo. O sucesso da série não se restringe ao público já que praticamente todos os FF são extremamente elogiados pela crítica.

O jogo em destaque hoje foi o último FF lançado para Playstation 1. Marcando o final de uma era, o game foi intencionalmente produzido como uma homenagem aos primeiros títulos da franquia, trazendo de volta a atmosfera fantástica e gráficos menos realistas (em comparação com o jogo anterior), com traços muito mais cartunescos. O criador de FF, Hironobu Sakaguchi, afirma, sem hesitação, que Final Fantasy IX é o seu jogo favorito em toda a franquia, considerando-o o mais próximo do que o Final Fantasy ideal deve ser. Esta também é a opinião do compositor Nobuo Uematsu, responsável pela trilha sonora deste e de outros jogos da série.

CONTEXTO

Todos os locais de FF IX

FF IX se passa em Gaia, um planeta com quatro continentes em que se desenvolve a maior parte do jogo – sim, eventualmente, nós trocamos de mundo por um tempo curto. O mais importante dos quatro continentes é o Mist Continent, terra das três grandes nações de Gaia: Alexandria, Burmecia e Lindbulm. O jogo começa em Alexandria, durante o aniversário da Princesa Garnet Til Alexandros XVII, protagonista feminina do game. Garnet, percebendo que sua mãe estava muito diferente desde a morte de seu pai e cansada da limitada vida de uma princesa, decide fugir do castelo e acaba, coincidentemente, sendo sequestrada pelo grupo de teatro Tantalus, que é, na verdade, um grupo de ladrões que se aproveita da arte para saquear as nações em que se apresentam. Seu sequestrador principal é Zidane Tribal, protagonista masculino de FFIX. Acidentalmente, também acabam se envolvendo no sequestro o Black Mage Vivi e o Guarda oficial de Garnet, o capitão dos Knights of Pluto, Adelbert Steiner.

Com o início da jornada pelo mundo de Gaia, passamos a conhecer melhor os personagens, suas motivações, sentimentos e pensamentos, sem restrições – a construção da personalidade dos membros de sua party e dos inimigos é trabalhada de forma coerente, com muita sensibilidade. Inclusive, este é o primeiro ponto importante de Final Fantasy IX: o quão humanos são todos os personagens e seus dilemas. É tradição, na série, a presença de personagens complexos. No entanto, em FFIX, principalmente com a nova [à época] ferramenta de exploração, os Active Time Events, não existem informações que você não possa acessar relacionadas ao que pensam os personagens em cada momento da trama. Além do desenvolvimento deles, deve-se ressaltar a profundidade das questões que os movem. Monólogos em que refletem sobre a própria existência e relevância, diálogos sobre submissão e poder, vida e morte, o chamado ciclo das almas; todos se encaixam perfeitamente no nosso “mundo real” e podem servir como exercício filosófico para jogadores de todas as idades.

Da esquerda para a direita: Zidane, Freya, Vivi, Garnet, Steiner, Quina, Amarant e Eiko

PERSONAGENS

Há um certo momento em que o mago do grupo, Vivi, começa a acreditar que não possui uma alma. Tudo indica que ele é apenas um clone. Dado este contexto, ele se pergunta constantemente para onde vai depois daquilo que está vivendo, se vale a pena se importar com os acontecimentos de Gaia, quanto tempo tem de vida, se ele tem sentimentos realmente ou apenas acredita que os possui e assim por diante. Vivi é tranquilamente o personagem mais angustiado e inseguro do grupo; o que em alguns casos poderia transformá-lo em um ser maligno, mas a bondade no coração dele é inabalável.

No caso de Steiner, o guerreiro, os dilemas são outros. Como soldado, ele devia seguir ordens não importa quais sejam as consequências? Ele devia insistir em manter uma princesa em segurança quando ela nem quer ser protegida? Ele vive de fato ou vive em função de outras pessoas? Quais são os sonhos de Steiner? Ele possui sonhos ou apenas deseja cumprir seu papel e abraça este destino como o único possível? Ele é humano, ao contrário de Vivi, mas, durante muito tempo age como se fosse uma máquina. Um robô incapaz de refletir em nome da eficiência. Quando começa a duvidar do quão saudável é este comportamento, aos poucos, ele começa a se tocar de que há coisas mais importantes do que o trabalho.

Garnet, a princesa, também tem os próprios problemas. Como princesa, ela precisa amar e cuidar dos próprios súditos, mas o que acontece com a vida dela quando ela começa a viver para o reino? Como aproveitar a própria juventude cercada por questões sociais de Alexandria? Como podem aqueles que um dia foram como família se voltarem contra ela por causa da magia? Por que ela é tão diferente do resto do povo de Alexandria? De onde vêm as habilidades dela? Afinal, de que lado está a rainha? Embora possa parecer que Garnet é quem possui a vida mais estável dentre os quatro personagens principais, sua posição hierárquica em uma nobreza corrompida a torna uma das figuras mais frágeis do reino. Isso enquanto ela se segura, claro.

Por fim, há Zidane, o protagonista. A princípio, ele é o personagem mais normal do grupo. Ele não possui grandes conflitos internos quando o conhecemos, pois é apenas um ladrão bem sucedido de um grupo de anti-heróis. Descobrimos com o tempo que ele é um conquistador e um lutador muito hábil, que de vez em quando passa por surtos de energia em que a pele dele fica brilhando. No primeiro destes surtos, ele fica chocado e começa a ficar curioso a respeito das próprias habilidades. Demora para que essa curiosidade comece a revelar um passado assustador, que leva a condições semelhantes as de Vivi. Até mesmo o espírito de um líder nato acaba sendo abalado pelo que a suposta origem dele indica. Embora no começo Zidane seja brincalhão e otimista, a experiência o torna cada vez mais preocupado, não só consigo mesmo, mas com todos os outros.

Claro que todos os outros personagens possuem as próprias histórias e nenhuma delas chega a ser ruim. Há algumas mais simples como as de Amarant, um mercenário em uma jornada de redenção, e Quina, um cozinheiro que quer descobrir todos os sabores de Gaia, dois personagens secundários fundamentais em determinados momentos para sua party, e outras mais complexas como as da maravilhosa Beatrix, guarda real, da guerreira Freya, amiga de Zidane, do vilão Kuja, que não é derrotado de verdade uma vez sequer até o final, e da fofíssima Eiko, responsável por responder várias das perguntas que Garnet vinha fazendo a si mesma. Aliás, Eiko é apenas uma criança, a última da própria espécie. Embora muito jovem, ela é extremamente poderosa e junto com seus amigos e protetores, os moogles, é peça fundamental para entendermos a história e o destino de Gaia.

TRILHA SONORA

Fundamental, também, para um jogo que se baseia tanto nos sentimentos, é a trilha sonora. Até agora não sei dizer se ela é mais triste, calma ou mística. O tema de abertura “O lugar para onde voltarei um dia” tem um desenho medieval, mas sem aquela sensação de batalha que costumam trazer as orquestras. Uma flauta te apresenta o mundo de Final Fantasy IX com sutileza. A melodia funciona como a correnteza que, de leve, faz com que você aperte start e caia em um oceano agitado, logo na primeira cena do jogo. As músicas de batalha não são tão agradáveis, mas elas ficam na sua cabeça por muito tempo, principalmente, por causa da repetição inevitável em batalhas muito longas. Dentro do jogo há uma melodia que apenas Garnet e Eiko conhecem e ambas cantam esse trecho durante alguns momentos chave de FF IX. Quando Eiko canta pela primeira vez, Garnet e Zidane estão tendo uma conversa que, inevitavelmente, levaria ao primeiro beijo do casal. Uma das melhores cenas do jogo. Ao reconhecer a música, Garnet começa a se perguntar quem estava cantando e isso leva a respostas muito mais determinantes do que ela esperava. Já quando a princesa canta pela primeira vez, quem é pego de surpresa é o próprio Zidane, que fica impressionado com o timbre dela e vai perguntar que música era aquela. Garnet não sabe e a conversa deles depois disso acaba não sendo muito simpática. A personagem Beatrix possui um tema próprio, uma das músicas mais bonitas do jogo, “Rosa de Maio”. O tema tem um tom muito heroico e diz bastante sobre a personalidade da personagem, que é forte e decidida o tempo todo, mesmo quando se vê forçada a ir contra os princípios nos quais acreditava no começo. Por fim, há duas outras músicas que merecem destaque. Uma delas é o tema de “Frontier Village Dali”, localidade fundamental para que Vivi comece a suspeitar a respeito da própria existência, e “Melodies Of Life”. A primeira é como uma melancólica canção de ninar que, embora traga alguma paz, às vezes te passa a sensação de instabilidade; de que algo está errado. A segunda, é a versão completa da pequena melodia que Eiko e Garnet sabem cantar e um verdadeiro teste para os olhos. Todas as músicas que citei estão nos links abaixo.

Melodies of Life:

Trilha sonora completa:

GAMEPLAY

O jogo se assemelha bastante aos jogos mais antigos da franquia, com algumas novidades. Como já mencionado, o game foi desenvolvido como uma homenagem aos primeiros títulos, mas trouxe algumas inovações importantes para a construção de um enredo mais completo, além de um gameplay funcional. Começando pela ferramenta já mencionada, expliquemos os chamados Active Time Events (ATE). O ATE serve para que, quando controlando determinando personagem, possamos ter acesso ao que está se passando com outro personagem em outra situação. Por exemplo, se estamos explorando uma cidade com Zidane e enxergamos a aba do Active Time Event, pressionamos select e a câmera muda de foco, nos levando para onde está Garnet e nos mostra o que ela está fazendo, com quem está ou o que está pensando. Os ATE podem mostrar cenas cômicas, relevantes para trama principal ou, melhor ainda, cenas que demonstrem monólogos de personagens em momentos de reflexão. Como em outros jogos de RPG, temos armas e itens que garantem habilidades específicas, que podem ser aprendidas e utilizadas mais tarde. Temos, também, a presença dos moogles, fadas com forma de porco e asas roxas, que nos permitem salvar o jogo e descansar. Outro aspecto relevante é a exploração em nível mundial. Para a época em que o jogo foi lançado, o mundo de Gaia era grande e bem detalhado, com vários pontos de exploração e alguns secrets interessantes – a exploração mundial, enquanto andamos a pé, no entanto, pode ser entediante com distâncias longas e repletas de inimigos fracos entre um lugar e outro. As batalhas funcionam no esquema de turnos. Você pode controlar até 4 lutadores e, assim como em Pokémon e jogos semelhantes, você precisa escolher um ataque/defesa/item a ser usado para que sua party faça alguma coisa.

RESUMINDO

FFIX é reconhecido por todos. Pode não ser tão popular quanto FFVII e FFVIII, entre os fãs, mas está entre os favoritos de pessoas que trabalham com a franquia há anos, além de ser o que alcançou as notas mais altas nas reviews mundiais. No metacritics, por exemplo, é o FF com a maior pontuação (94%).

Tudo no jogo é feito para que o jogador seja levado a uma outra dimensão. Uma em que a beleza do traço tenta disfarçar graves dilemas pessoais. A relação entre os personagens, sejam amigos ou rivais, é sempre intensa e carregada de emoções transmitidas de forma convincente demais para que passem despercebidas. Mesmo que não haja dublagem no gameplay e nas cutscenes.

Tanto durante os momentos mais duros, quanto durante os momentos de felicidade, é quase automático se colocar no lugar do personagem e sentir ou buscar entender o que ele sente. O carisma de Zidane, Garnet, Vivi, Steiner e todos os outros faz com que o jogador se apegue demais ao que se passa. Você talvez sinta tanta vontade de descobrir o desfecho da história, que é capaz de esquecer de treinar os personagens para chegar no final de uma vez – enfrentar um Boss Final em um jogo de RPG sem treinamento é um tiro no escuro.

Existe uma linearidade neste jogo sim, mas qualquer outro final, ou opções excessivas, não seriam adequados ao que vivenciamos com o desenrolar da trama principal e com o desenvolvimento de cada um. Sinta-se à vontade para chorar, se emocionar, torcer e, claro, jogar este que fechou com chave de ouro a era dos Final Fantasy de PS 1.

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