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Artigos e Análises

Liga da Justiça: O Ciborgue que não se aceita

Se comparado a outros filmes da DC, Liga da Justiça foi breve, com duração de apenas duas horas. Sendo assim, alguns aspectos parecem ter sido deixados de lado.

Como sabemos, Victor Stone era filho único de pais cientistas. Ele passou sua infância cercado por conceitos, experimentos e estudos. Tendo este cenário em mente, supõe-se que ele era uma criança inteligente, com bom suporte e acompanhamento acadêmico.

Em certo ponto de sua vida, passou a frequentar a escola e desenvolveu interesse por futebol americano. No filme é citado, inclusive, que ele se tornou um atleta, e treinava intensamente para que um dia pudesse se tornar profissional. Seu pai ficava extremamente irritado com isso, porque na cabeça dele, Victor devia seguir seus passos e se dedicar a ciência. Aplicar-se ao esporte estaria o desviando de seu destino. Essa divergência de planos cria um clima de tensão na relação entre pai e filho, afastando-os.

A explosão que matou sua mãe e mudou radicalmente seu corpo teria acontecido nos Laboratórios S.T.A.R., por acidente. Seu pai, Silas Stone, e sua mãe, Eleanor, trabalhavam lá com aprimoramento humano — mas muitas das peças que guardavam lá ainda não tinham sido testadas.

O evento que teria desencadeado a maior tragédia da vida de Victor, por assim dizer, foi causado por seu pai ao abrir uma lacuna interdimensional por conta de um projeto em que trabalhava, no mesmo dia em que Victor teria decidido visitar seus pais no laboratório.

Na esperança de salvar seu filho, Silas reconstruiu o corpo gravemente lesionado de Victor com peças (próteses) cibernéticas ali dispostas, transformando-o em um ciborgue.

No longa, Victor se isola da sociedade em uma espécie de kitnet (também conhecida como a “Cozinha do Inferno”). Ele prefere fingir para o mundo que está morto. Um dos aspectos positivos no filme é a exploração do trauma do Ciborgue, por mais que não este seja tão detalhado. As cenas em que ele aparece trazem um clima denso; pesado. É perceptível a dor e a amargura na reclusão de Victor.

Dentro da trajetória pessoal de cada personagem, não somente dos heróis, o filme trata de traumas, e, de certo modo, até de superação. As situações transformam aspectos perturbadores da vida de cada um em forças para lutar, encarar dificuldades e tornar-se alguém melhor. Embora isso não seja explicitado no decorrer do longa, até porque o objetivo não é esse, a ideia está claramente subjetivada.

Victor declaradamente odeia não só o que houve com seu corpo, como todos os impactos que isso trouxe para a vida dele. Em um dia ele era um atleta se preparando para os Jogos Olímpicos. No outro ele é uma espécie de robô cibernético alienígena que perdeu sua mãe e não sabe lidar consigo mesmo em âmbito psicológico ou físico, visto as peças que o compõem agora.

Ele sente que sua vida foi roubada, ao menos a vida que costumava ter. A vida que amava. Seu planos foram destroçados e sua identidade teve de mudar. Ele cita no filme que a cada dia há uma espécie de atualização diferente nas partes robóticas. Além disso, a língua que ouve dentro de sua cabeça é alienígena.

Victor tem ampla capacidade de destruição. Ele é forte, inteligente e, claro, é um ciborgue. No entanto, assim como o Coisa, da Marvel, ele não se sente mais ele, e esse aspecto corrói seu coração um pouco mais a cada dia, contribuindo para sua postura distante de todos que se colocam a sua volta.

Liga da Justiça serve como uma forma de canalizar sua dor e falta de aceitação pessoal. A busca pelo êxito durante toda a operação em busca das três Caixas Maternas faz com que ele foque menos no que houve consigo, chegando até a aceitar uma leve aproximação de seus novos companheiros.

Só lamento que a Warner tenha cortado tanto dele, no sentido de que poderia haver uma contextualização melhor de seu passado. A previsão de um filme dedicado somente à trajetória de Victor Stone, interpretado por Ray Fisher, está previsto para 2020.

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